MARANHÃO, Ricardo. "A importância do gás natural". Rio de Janeiro. IE-UFRJ, IFES nº 1.367, 16 de junho de 2004

O gás natural, produto formado por hidrocarbonetos leves, do metano ao pentano, é petróleo na fase gasosa, assim como o asfalto é petróleo sólido e a gasolina e o diesel são frações líquidas do petróleo.

A importância do GÁS NATURAL explica-se por razões diversas. De início a sua versatilidade. A exceção do querosene para aviões a jato, ele é capaz de substituir todos os outros derivados de petróleo. Pode ser usado nos automóveis, alternativamente à gasolina e ao álcool carburante. Substitui o óleo combustível, o diesel, os carvões mineral e vegetal e o urânio nas centrais termoelétricas. É matéria prima fundamental na indústria petroquímica, competindo com a Nafta. Pode ser utilizado para a produção de solventes e fertilizantes, como a amônia e a uréia e respectivos derivados. Sua aplicação como redutor siderúrgico também constitui exemplo da sua ampla utilização no mercado moderno.

Sua importância decorre ainda de inúmeros fatores que estimulam e facilitam o seu emprego. Trata-se de combustível de queima total, que não deixa resíduos, nem cinzas. Sua utilização não requer imobilizações financeiras em estoques. Seu emprego é imprescindível na indústria de produtos especiais como porcelanas finas, onde o uso de óleo combustível pode comprometer a qualidade final.

O processamento do chamado “gás natural úmido”, em UPGN(s) – Unidades de Processamento de Gás Natural - permite obter derivados de petróleo como o GLP (mistura de propano e butano), e C5+ (gasolina natural), além do etano que pode ser transformado no eteno (importante produto petroquímico), e do metano.

O emprego do gás natural traz importantíssimos benefícios ecológicos.

Em um país como o Brasil, onde a lenha e o carvão vegetal são utilizados em larga escala, o gás natural pode evitar o desmatamento de milhares de quilômetros quadrados do nosso território.

No setor automotivo, a eficiência do seu emprego já está devidamente comprovada. Embora ainda estejamos muito atrasados no chamado GNV – GÁS NATURAL VEICULAR, somente no Rio de Janeiro já existem 200 postos de abastecimento para veículos leves, a maioria táxis. Bem mais barato e não suscetível de adulteração como a gasolina, o GNV conquistou definitivamente os taxistas e seu consumo tende a se universalizar na categoria, à medida que as redes de abastecimento são estendidas a todos os taxistas e demais veículos dos municípios do Estado.

Nas residências, substitui o gás produzido pela reforma da Nafta e também o GLP (gás de cozinha – gás em botijão), este mais pesado e, portanto, de utilização mais perigosa. O gás natural, sendo mais leve, sobe, enquanto o GLP fica à meia-altura, probabilizando explosões.

O gás natural é praticamente isento de enxofre, acarretando maior durabilidade aos equipamentos e instalações (menor corrosão), e sua queima não emite particulados (cinzas, nitretos, anidridos etc) causadores das deletérias chuvas ácidas

Todos esses requisitos acarretam mais baixo custo sobre os demais combustíveis.

Tais vantagens justificam a participação do gás natural na matriz energética mundial onde, na média, representa 20% do consumo de energia primária; na Holanda, por exemplo, alcança 40%.

No Brasil, a perspectiva de sua utilização é excepcional, não só devido à sua ainda modesta participação na matriz energética (3%), bem distante da mundial. Além disso, pela grande oferta do gás boliviano propiciado pelo gasoduto Bolívia-Brasil e, mais recentemente, pela espetacular descoberta feita pela Petrobrás na bacia de Santos que mais que quadruplica nossas reservas (655 bilhões de m3).

Esta reserva equivale a 4,2 bilhões de barris de óleo. Em função desses dados é essencial acelerar as providências para utilização desta enorme potencialidade brasileira. Tais iniciativas não são medidas restritas à área técnica (plantas de processamento, redes de distribuição etc.). Há que se planejar um processo de mudanças institucionais como, por exemplo: a utilização do GNV não restrita aos táxis, a universalização de sua utilização em veículos de uso particular e público (ônibus e caminhões).

Para tais efetivações, também como exemplo, o BNDES deveria dispor de linhas especiais de financiamento, o governo federal deveria proceder a incentivos fiscais para a indústria automotiva, o que permitiria o desenvolvimento de projetos que dispensassem as adaptações de agora e que ainda permitissem ampliação das autonomias exigidas pelas grandes distâncias.

No âmbito doméstico, teriam que ser revistos os dispositivos legais que regulamentam as construções, o mesmo ocorrendo com as indústrias fabricantes de equipamentos que empregam como fonte energética a combustão.

Enfim, providências compatíveis com as nossas potencialidades e que também se enquadram nos cuidados exigíveis aos condutores de nossa economia e na tão reclamada preocupação com o meio-ambiente.

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